EUA avançam para regulamentar uso de IA em decisões salariais: transparência e combate à discriminação entram em pauta

Lucas Montarroios
Lucas Montarroios

17 de abril de 2026

Legisladores nos EUA buscam regulamentar o uso de algoritmos para definir salários, visando evitar discriminação e aumentar a transparência nas decisões automatizadas.

EUA avançam para regulamentar uso de IA em decisões salariais: transparência e combate à discriminação entram em pauta

IA em decisões salariais: quais são os riscos para os trabalhadores?

Nos últimos anos, empresas americanas passaram a adotar cada vez mais ferramentas de inteligência artificial para definir salários, promoções e até demissões. Segundo dados da PropertyCasualty360, cerca de 40% das grandes corporações já utilizam algum tipo de sistema automatizado para avaliar remunerações, um salto significativo em relação aos 15% registrados em 2020. Essa transformação, embora prometa eficiência, levanta sérias preocupações sobre discriminação algorítmica e falta de transparência.

O problema não é teórico: em 2023, uma investigação do Departamento do Trabalho dos EUA revelou que um algoritmo de uma grande rede varejista reduziu em 25% as promoções de mulheres em comparação a homens com qualificações semelhantes. Casos como esse aceleraram a pressão por regulamentações que garantam justiça nas decisões automatizadas.

Propostas nos EUA: transparência e combate à discriminação algorítmica

Diante desse cenário, legisladores em vários estados americanos, como Califórnia, Nova York e Illinois, estão apresentando projetos de lei para fiscalizar o uso de IA em recursos humanos. As principais medidas incluem:

  • Auditorias obrigatórias dos algoritmos usados para decisões salariais, com publicação de relatórios anuais;
  • Proibição de sistemas que usem dados sensíveis (como gênero, raça ou idade) para calcular remunerações;
  • Penalidades financeiras para empresas que não cumprirem as normas, com multas que podem chegar a US$ 1 milhão por infração comprovada;
  • Direito dos funcionários de contestar decisões automatizadas e solicitar revisões manuais.
  • A deputada democrata Katie Porter, do estado da Califórnia, afirmou em entrevista que "a automação não pode ser desculpa para perpetuar desigualdades históricas". Sua proposta, batizada de AI Wage Transparency Act, exige que todas as empresas com mais de 50 funcionários publiquem dados detalhados sobre como seus sistemas de IA calculam salários.

    Como funcionam os algoritmos de definição salarial? Entenda a transparência

    Muitos sistemas de IA para definição de salários funcionam com base em modelos de aprendizado de máquina treinados com dados históricos da empresa. O problema é que esses dados muitas vezes refletem viéses estruturais da organização. Por exemplo:

  • Se uma empresa historicamente paga menos a mulheres em determinadas funções, o algoritmo pode replicar e até ampliar essa diferença;
  • Dados de promoções passadas podem conter vieses inconscientes, como favorecer funcionários de determinadas universidades ou redes de contato;
  • Algoritmos podem priorizar características irrelevantes, como o horário em que um funcionário envia seus relatórios.
  • Para combater isso, especialistas recomendam a adoção de ferramentas de fairness (justiça algorítmica), que testam os modelos antes de colocá-los em produção. Empresas como a IBM já oferecem soluções desse tipo, mas o custo ainda é um obstáculo para pequenas e médias empresas.

    Regulação global ou fragmentada? O futuro da IA em decisões salariais

    Enquanto os EUA avançam com legislações estaduais, a União Europeia já deu um passo adiante com o AI Act, que classifica sistemas de IA de alto risco — incluindo aqueles usados em recursos humanos — e exige conformidade com normas rígidas. A diferença é que, nos EUA, a regulação ainda é fragmentada por estado, o que pode criar um cenário de insegurança jurídica para empresas que atuam em múltiplas jurisdições.

    Para especialistas como a professora Cathy O'Neil, autora de Weapons of Math Destruction, a solução ideal seria um padrão nacional unificado nos EUA, semelhante ao que existe na UE. "Sem regulação clara, as empresas continuarão a usar IA de forma opaca, colocando trabalhadores em desvantagem", alerta.

    Impacto no Brasil: regulamentação de IA em salários afeta trabalhadores?

    Embora a discussão esteja focada nos EUA, o tema é global. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) já estabelece princípios como transparência e não discriminação, que poderiam ser aplicados a sistemas de IA em recursos humanos. Além disso, projetos como o PL 2338/2023, que tramita no Congresso, buscam regulamentar especificamente o uso de algoritmos em decisões trabalhistas.

    Para os profissionais brasileiros, a mensagem é clara: exigir transparência das empresas e apoiar iniciativas que garantam que a IA seja usada para promover, e não reduzir, a equidade salarial. Afinal, como lembra o economista Thomas Piketty, "a desigualdade não é um acidente, é uma escolha — e a tecnologia não deve ser usada para torná-la irreversível".

    Veja também: Mozilla Lança Cliente de IA de Código Aberto: Um Novo Paradigma para Empresas

    Dados e estatísticas: como a IA afeta a equidade salarial?

    Evolução do uso de IA em decisões salariais nos

    Gráfico de linha mostrando o crescimento do uso de IA em decisões salariais nos EUA de 2020 a 2026
    Gráfico de linha mostrando o crescimento do uso de IA em decisões salariais nos EUA de 2020 a 2026

    O uso de IA em decisões salariais cresceu mais de 2,5 vezes desde 2020, com projeção de atingir 55% das empresas até 2026.

    Fonte dos dados: PropertyCasualty360

    Impacto da discriminação algorítmica em promoçõe

    Gráfico de barras comparando taxas de promoção entre homens e mulheres com mesma qualificação
    Gráfico de barras comparando taxas de promoção entre homens e mulheres com mesma qualificação

    Mulheres com qualificações semelhantes aos homens tiveram 25 pontos percentuais a menos em promoções, evidenciando discriminação algorítmica.

    Fonte dos dados: Departamento do Trabalho dos EUA (2023)

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    Lucas Montarroios

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    Lucas Montarroios

    Especialista em produtos, mercado e ferramentas práticas de IA. Cobre lançamentos, benchmarks, estratégias das grandes empresas e o uso aplicado da IA no dia a dia.

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